A minha Maria não é uma Maria qualquer

Hoje, a minha Maria faz 88 anos, diz ela, foi registada a 11/11 mas diz que faz anos hoje, 88 anos.
A Minha Maria que me acompanha desde sempre mesmo que eu no meu dia a dia nem sempre possa ir ao seu encontro como se não soubesse que ela não me vai durar para sempre, é a Maria lá de casa, da minha mãe, do meu irmão, dos muitos netos emprestado que ela foi acolhendo de baixo da asa, asa enorme a dela.

Parecia-me a olhos de miúda ainda filha única que a tal asa era só minha. Depois nasceu o meu irmão e ela nunca deixou de ser a minha Maria, apesar de também ser a dele de igual forma. Afina ela tem duas asas e a minha mãe já é grande e não precisa.
Não contente ela acolhe mais uma, outro e mais uma ainda, foi somando, como se o espaço não tivesse fim e sim, era tanto minha como deles, os de sangue e os de coração.
Isto tanto servia para o bem como para o mau, se era para mimar era para todos e deus nos livre de vir da escola e não haver um lanche composto, se era para ralhar porque um fez merda na altura ainda não dizia asneiras sobrava para todos, como o lanche, como a tal asa.
Só apanhei uma vez, de colher de pau, foram duas pauladas secas besuntadas de banha quente, doeram mais na alma que nas pernas, merecias, soube que sim no preciso momento em que lhe vi nos olhos que a alma dela também chorava, nada disse e nada ficou por dizer, aprendi à primeira, com ela era assim.
Aprendi a limpar uma casa, a cozinhar, a poupar o lambongo, a partilhar porque antes de comer para sempre para mais um, a capinhar, a costurar, a fazer crochet e todo um sem fim de utilidades que nunca uso, mas aprendi e com vontade.
Ela, a minha Maria, essa de quem pensei roubar o nome para a minha filha, essa que me disse que ficava muito feliz e honrada palavra cara para quem só teve aula até ao 4 ano mas que era melhor escolher outro porque é um nome áspero, nem a mão de deus se safou, que não traz boa coisa, não sei como me pode dizer tal coisa uma pessoa que só me deu o bom e o bem mas mesmo assim, eu ouvi e não hesitei em acatar, nunca me mentiu, não era agora, veio uma Carlota a quem eu chamo dezenas de vezes Maria Carlota ou Carlota Maria.
Ela, que sempre disse que não ia morrer antes de conhecer a bisneta, já o dizia à anos, tinha a certeza que ia ser menina, não mostrou qualquer espanto quando lho confirmei lá por volta dos 5 meses de gravidez, essa gravidez que ela em dois segundos me tirou por medida nos olhos de costureira, que ninguém a engana em cm, afinal ela já sabia, era menina e ponto.
Ela que desde que a miúda nasceu tem vindo a testar novas metas, de perna curta pois claro porque a idade e seus problemas, agora a ficar sérios, não a deixam pensar para mais longe, não gosta de deixar por cumprir.
Esta Maria não é igual às outras, nop, esta Maria é um show, vocês que a conhecem não têm como negar. Diz que foi presa por não chibar as quengas da rua das pombas, sabia bem quem eram, mesmo assim a liberdade sabia-lhe bem. Casou por procuração com um dos melhores homens do mundo, como era lindo aquele homem. Voltou depois de construir família para a terra que a viu partir sem nada, terra que a viu chegar com família e meia dúzia de arcas, pronta a começar a vida depois de expulsa de Angola. A minha Maria, cuidou, criou, educou, ensinou assim que dê por conta de umas 10 pessoas, todas elas voltam a casa volta e meia, todas elas lá entram e gritam por ela eu devo ser a pior de todas.
A saúde não é lá muito fã dela, mesmo assim em dias bons ela goza com o trágico fim, não há melhor forma de lutar contra a não ser fazer-lhe frente.
A Minha Maria faz hoje 88 anos e eu que me sinto sempre pequena perto pela, comparada com ela, só queria que ela me vivesse para todo o sempre, raio, para lá do meu existir é que era!
A minha filha não conheceu o homem mais lindo mas conhece a Maria, a bivó dela e ela tinha razão, é uma miúda, é igual a mim e sim eu ando a pagar os meus pecados todos, diz a Maria, a sorte é que eu não tenho assim tantos para pagar, ela é como eu, que ninguém me negue isso.
São muitos anos, tens razão, preferia que não a tivesses, mas como me disse à dias, quando negociávamos o tal bolo para diabéticos com pepitas de chocolate por fora, que ela prometeu não comer óbvio que os vai chuchar, são 88 mas foram os melhores 88 anos da vida dela.

Façam-me um favor, aí onde vocês me estão a ler, pensem nela, no quanto a gostariam de conhecer, no quanto a conhecem, pensem e mandem para cá as energias e beijinhos.

1 comentário:

Carpida á vontade que logo eu vejo