Ela existe como se nada fosse, como se eu não precisasse dela para ser mãe.

Já uma mãe não pode ser mãe sem que o filho exista, sem que se aconchegue no seu colo como se não fosse precisa a sua existência, tão doce, tão simplista, tão inocente.

Ela, ali sossegada, com o meu olhar por cima, calma, relaxada, deve-se ter sentido observada e virou a cabeça. Viu que a mirava como se fosse a água do meu deserto e sorriu, o meu mundo elimina-se a cada sorriso dela. Estava escuro, estava a cor certa para pegar no sono, era tarde e estava frio e ela, ao ver-me sorrir de volta, num sorriso pedinchado de quem sente estar a milhas de distância daquele corpo pequeno que ainda à dias me cabia no ventre, faz aquele ar ternurento de quem sabe o meu sofrimento e trepa sofá a cima, lenta, rebolante, naquele rabo de fralda pronto para dormir, sobe para o meu colo e olha-me nos olhos, profundamente enquanto me acaricia a cara.
Não me mexi, nem pensei em dizer uma palavra, fiquei só ali, presa naquele olhar que me desnuda a cada respirar, eu, logo eu que me odeio presa, ali fiquei tão calma quanto ela.
Deu-me um beijo disfarçado de chupeta e virou-me a cara para lhe dar um a ela, sorriu e virou a cara de novo e de novo e mais uma vez.
Afaguei-lhe o rosto e ela aninhou-se no meu colo, de costas voltadas, a minha bebé grande, e esperou que lhe acariciasse as costas, o cabelo, a alma.
E ali ficámos até que foi tarde, até que dormiu.

Nunca uma mãe existiu sem que um filho viesse ao mundo, mesmo que não do nosso ventre, mesmo que dele viesse, pensava eu ali enternecida, submersa nesse amor que não se apaga, não se substitui, não se despreocupa, esse amor que é tão igual e tão diferente para cada uma de nós, esse mesmo que nenhuma de nós sabia o que era até ao minuto passada, aquele em que os amámos mais ainda, como este que passou.

Quero-a sempre assim, no meu colo, mesmo que de fora do ventre onde é de todos e não só minha, mesmo que não caiba, mesmo que nunca venha a saber o quanto a quero, mesmo depois de saber o quanto é possível querer alguém.

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