Há dias assim

Em que nem se mata nem morre nem se puxa a carroça para o boi passar, afinal o bicho têm cornos que matam homem que com ele teimam em brincar. Há dias assim solenes e imundos, tão frios e fúnebres que nem lhes valem o sol a brilhar por entre as rajadas de vento húmido de terra à beira mar.
Há dias de lembrança, dias de esperança, dias de "vai passar" e se "já passou" há dias de canto, tormento e pranto aflito por um passado lá atrás.
Há dia em que sou portuguesa serena e incauta com os cordões à bolsa abertos e patacas perdidas em esquinas vãs.
Há outros porém que está veia lusa que tenho me enche de coragem, me pára a 25 e me faz cruzar mares.
Há dias de vento na vela, velocidade à proa sem tábua nem âncora só confiança no mar, que me leve para longe, me faça freiras e me faça querer voltar.
Há dias que sorrio, em que só vejo o dia de palas, que bela mula teimosa de peito cheio e queixo no ar.
Há dias em que me torno varinha, condensa peixeira, dra. formada professora sem opinião a dar, me contorço em corpetes de quenga trabalhadora ilegal com contrato de visto perdido, rodo as sete sais e nem polícia ou sacana me consegue agarrar.
Há dias que sou fogo, ardente, apaixonada e sem nada mais para dar me jogo na cama me entrego e me vergo e me deixo roubar.
Há dias sozinhos, perdidos só comigo, pequenos, bandidos de secretos mandamentos que não vos posso contar.
Há dias em que sou de um mundo que vejo e desejo conseguir mudar.
Há dias em que tenho a noção que não mando, não escolho, não conto e nem canto, mas que sei que nem rodando mil sais e nem me jogando ao mar me conseguem quebrar.
Há dias assim.
Há dias melhores.
Há dias e ainda bem que os há.


1 comentário:

  1. Há uma musica do Henry Abraçamontro que começa assim.. e a ler isto não a consegui parar de cantar....
    tu sabes das coisas....

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Carpida á vontade que logo eu vejo