Mil horas



- São mil horas por favor.
- Mil horas de quê?
- Mil horas em cada dia. Mil horas a mais e à descrição, por favor.
- Mas mil horas para quê?
- Mil horas para ser tudo aquilo que não posso ser nos dias de 24h.
- Ah! Que tolice. De certo não seria assim tão diferente.
- Mil horas para fazer tudo aquilo que não posso fazer em 24h. Sim?!
Juro que preciso.
Mil horas para amar mais, não, mil horas para amar melhor, para os amar sem ter o tempo contado entre a hora do sono e o toque do robot de cozinha. Mil horas para saborear o almoço, sozinha, no silêncio, sem ter de engolir o bife para poder ainda conseguir apanhar a roupa seca e estender a máquina que ficou a lavar de manhã. Sim? Por favor?
Mil horas para o ver despertar, lhe dizer que o amo ao ouvido. Mil horas para o ver sair do duche e outras mil para o obrigar a voltar para lá, ver-lhe a água correr no corpo, só meu.
Mil horas para poder levantar sem pressa e apreciar o acordar dela, ouvir o primeiro bocejo, para ver o primeiro sorriso do dia sem ter de a arrancar da cama com o habitual "bora bora que o dia já começou" e apreciar cada curva do seu sono e curiosidade matinal.
Mil horas para preparar o pequeno almoço de novela brasileira. Para comermos os 3 à mesa antes de cada um sair para as suas 12h fora do ninho.
Mil horas para passear a cadela, cada vez mais rebolante por falta de passeio, deixar a bicha pastar e voltar e escovar a leoa do sofá.
Mil horas mais.
Para voltar ao fim do dia e ver o olhar deles reencontrar-se, fazer pause aí, deliciar-me com o sorriso de "pai chegaste". Mil horas para ouvir como ele a faz rir durante o banho. Mil horas para filmar as vezes que ela lhe dá a volta e ele sorri.
Mil horas para a ver dormir ali no meu colo, o colo dela, serena, de respiração tranquila e confiança total. Mil horas para a deitar e a ver dormir. Mil horas para me sentar no sofá ao fim do dia e nada ter que fazer. Mil horas para escrever, criar, pensar e resolver. Mil horas para ficar ali de olhar perdido sem nada ver, sem pressa de saber. Mil horas para lhe beijar a testa, para lhe dizer que a amo e me ir deitar com ele no quente.
Mil horas para me encantar neste encanto que vivo onde mil horas nunca haviam de chegar.
Mil horas de nós, disto.

3 comentários:

Carpida á vontade que logo eu vejo