A pilhagem

Era uma casa.
Era uma casa pilhada.
Foi uma casa que se pilhou, como quem tudo tira sem nada levar.
Era uma casa, talvez tenha sido um lar.
Era uma casa que foi pilhada como se nunca alguém tivesse sido feliz entre aquelas paredes, como se não se tivesse criado uma vida ou como se a vida não os tivesse criado.
Era uma casa e foi pilhada.
Era meia noite em pouco, passava uns quantos minutos, e ela trazia pela mão tudo de realmente importante que aquele lar lhe deu e olhava para tudo aquilo que lhe tinha tirado, fazendo de conta que não deixava nada mais do que tudo o que lhe pertencia, tudo o que havia conquistado e estimado.
Tudo o que tinha sido aquela casa, empilha numa arrecadação, embalado à solta nas malas de dois carros e tudo o que é preciso para ser feliz, ali, pelo braço, serena e tranquila, esquecendo a agitação do resto desse dia.
FIcou o que não se leva, ficou uma casa vazia, fria mas limpa de discernimento que alguns conseguem ter perante a maldade dos outros.
Ficou no escuro, pobre lar, que de tanto tinha e com nada ficou.
E aquela mulher trazia pela mão o seu mundo, e pelas costas a tristeza, amargura e uma parede a ruir.
Aquela mulher cheia de uma força com nome próprio.
Cheia de uma força que não se sabe existir até ao dia em que se precisa dela, a força que se espera ter escondida para nunca usar.
A força, forçada, de quem deixa tudo para não mais voltar.
E nós, de rumo a casa, à nossa casa, com a esperança de nunca ter de fazer o mesmo, cada um no seu acento.
E nós que de tanto bem lhes querermos lhe pilhamos a casa, lhe escurecemos o lar.
E eu que dormi com o chorrilho de lamento do mundo dela, que desci as escadas do meu lar vezes sem conta nessa noite só para contemplar o meu.
E eu que de tanto de bem lhes querer desejo não lhes ter feito mal algum.
Eu que dormi com o aperto de peito que não é meu, de quem também têm um lar com tudo, de quem percebe que num minuto pode ser a minha casa a pilhada.
Afinal a única certeza que se têm é mesmo a certeza de não de estar certo de nada.

2 comentários:

Carpida á vontade que logo eu vejo