Era uma vez...Ditinha a ovelha sonolenta.

Á muito, muito tempo atrás, existia um rebanho de ovelhas na lua.
Eram nada mais nada menos que 322 ovelhas, todas bem gordas, todas bem felpudas e todas de cores diferentes.
No mesmo tempo existia um lobo solitário, excluído da sua alcateia por ser muito guloso, que vivia na lua dessa lua.
Todas as 322 ovelhas viviam tranquilas, um bocadinho apertadas mas tranquilas, pois apesar do lobo passar os dias e noites a correr pela sua lua a fora, sempre a tentar alcançar a lua das ovelhas para poder comer uma ovelha gordinha, nunca tinha conseguido mais do que ficar cansado.
Toda a gente sabe que as ovelhas existem na lua para que todas as pessoas que vivem na terra as possam contar até adormecer, o que as pessoas não sabem é o porquê das ovelhas passarem as noites a saltar a cerca, sempre, todas as noites, sempre a mesma cerca, numa lua em que apenas elas existem e onde não têm do que fugir.
Pois bem, elas saltam porque o lobo que existe na lua da sua lua passa a vida a correr atrás delas. Ele corre e elas saltam. Elas saltam e ele corre. Não sabem fazer mais nada. Ás ovelhas foi o que lhes disseram que tinham que fazer, fugir do lobo, apesar de ele estar longe e sem hipótese de conseguir chegar até elas. O lobo, era guloso, queria porque queria comer uma daquelas ovelhinhas gordinhas e felpudas.
No meio daquelas 322 ovelhas existia uma que destoava das outras.
Ditinha era a ovelha saltitona mais trapalhona de todas as ovelhas que alguma vez existiram naquela lua. Ditinha era a ovelha brilhante, o que só por si era uma coisa de dar nas vistas, mas a somar a isto Ditinha tinha um problema tremendo para quem têm que passar o tempo a saltar a cerca, para que todas as pessoas na terra possam adormecer, Ditinha adormecia constantemente.
As irmãs julgavam que era por ser a mais gorda de todas, por se cansar mais do que elas e por isso precisar de dormir mas não, o problema desta ovelha era que ela não se contentava com o seu papel de viver para saltar a cerca e adormecer as pessoas, Ditinha questionava-se porque é que tinha que fazer apenas e só isto e para se poder questionar tinha que apreciar o trabalho que fazia e a melhor maneira de o fazer, era observar as suas irmãs só que como acontecia a todas as pessoas da terra, Ditinha adormecia ao ver as irmãs saltarem a cerca.
Era um problema tremendo pois como todos sabemos as ovelhas saltam a cerca sempre seguidas e sem parar, ora, quando Ditinha adormecia no meio da fila estava tudo tramado, a ovelha seguinte caía sobre ela e a outra e a outra e todas as outras irmãs seguintes, o lobo parava para uivar e as pessoas na terra não conseguiam adormecer.
De tempos a tempos Ditinha lá era chamada ao tribunal das ovelhas da lua que acontece todos os sábados, pois o sábado é o dia em que na terra as pessoas podem dormir mais tarde e o saltar de cercas das ovelhas não é tão preciso. Ditinha lá se sentava no banco dos réus, o juiz, Pai de todas as ovelhas, perguntava o porquê de Ditinha não se contentar apenas e só em saltar a cerca como todas as outras irmãs, e todos os sábados Ditinha respondia:
- Mas porque é que eu tenho que ser como todas as outras? porque é que eu tenho que fazer o que alguém um dia achou que era suposto ser apenas e só o que eu deveria fazer?
Todos os sábados o Pai de todas as ovelhas respondia o mesmo:
- Porque é o que se faz, todas fazem o mesmo, parece mal se fizeres diferente, percebes?
- Não!
Respondia Ditinha de todas as vezes e de todas as vezes saía do julgamento com o mesmo castigo, 3 horas extra de saltar cerca diárias, o que fazia com que praticamente não conseguisse descansar. No fundo como todas as irmãs sabiam, o castigo não era dado para que não pudesse descansar mas sim para que, ao fim de um dia de trabalho Ditinha se sentisse tão cansada que não tivesse capacidade para inventar de ficar a contar as irmãs, evitando assim, pelo menos por algum tempo, que houvessem mais acidentes. Ditinha cumpria sempre o seu castigo, sempre triste por ter que o fazer mas também muito zangada por ninguém mais perceber o seu dilema. É que nem sequer sabiam ao certo quem é que tinha decidido que este rebanho de ovelhas da lua teria como único serviço saltar a cerca, sempre, todas as noites, sempre a mesma cerca, sempre da mesma maneira e sempre para o mesmo lado.
Um dia, Ditinha que para além de gorda e felpuda era também muito teimosa, resolveu que ao menos iria saltar ao contrario das irmãs e assim, nessa noite, enquanto todas corriam de norte para sul da cerca, Ditinha começou a correr de sul para norte. Ora como é óbvio deu problema. O lobo parou e abriu a boca convencido que era nessa noite que uma ovelha gordinha lhe ia cair na goela. As irmãs chocaram umas contra as outras pois a primeira ao ver Ditinha vir direita a ela, ficou tão perplexa e até ofendida pela coragem da irmã em contrariar, mais uma vez, as ordens do Pai que travou a quatro patas e mais nenhuma ovelha saltou a cerca nesse dia, deixando todas as pessoas da terra sem conseguirem dormir.
Ao ver o acontecido Ditinha ficou triste.
Porque é que só por ser diferente, por querer fazer outra coisa diferente do que era suposto, mesmo que não prejudicasse ninguém, porque é que todo o rebanho tinha que reagir assim?
Nem sequer chegaram a sábado. O Pai convocou todo um rebanho e mais uma vez Ditinha sentou-se no banco dos culpados.
Lá estava ela mais uma vez, gorda, felpuda e brilhante, talvez um pouco envergonhada mas de cabeça erguida. Mais uma vez a pergunta foi a mesma e mais uma vez a resposta foi a mesma mas desta vez Ditinha acrescentou:
- Não faço mal a nenhuma de vocês! Porque é que não me podem deixar ser feliz? eu só queria perceber porque é que têm que ser assim e agora, que já percebi que não temos que ser todas iguais só quero poder escolher como quero saltar a nossa cerca. Se eu consigo correr e saltar para um lado e vocês para o outro porque é que não pode ser assim?
Do outro lado ninguém respondeu e Ditinha continuou.
- Se saltarmos de ambos os lados a fila fica mais pequena e como saltamos num compasso mais acelerado, todas as pessoas da terra vão adormecer mais rápido, onde é que está o mal disto?
Ninguém disse nada.
O rebanho recolheu-se para ponderar a questão.
Talvez Ditinha tivesse alguma razão!
No dia seguinte, mais uma vez de frente para todo o rebanho, o Pai de todas as ovelhas disse:
- A Ditinha têm razão, nem sequer sabemos quem foi que nos disse que tinham que correr todas para o mesmo lado, a partir de hoje cada uma de vós pode correr como quiser, desde que não prejudiquem o trabalho das vossas irmãs ou o sono das pessoas da terra.
Ditinha rejubilou de alegria e a partir desse dia tanto corria de norte para sul como de sul para norte e com espanto verificou que muitas das suas irmãs fizeram o mesmo.
Todas ficaram felizes pela coragem de Ditinha ter dado frutos, todos menos o lobo da lua da lua das ovelhas. Pobre lobo que nunca mais soube para que lado deveria correr e daí em diante se sentou e deixou ficar sentado, de bocarra aberta, sempre e todos os dias á espera que alguma das ovelhas gordinhas e felpudas lhe viesse simplesmente parar á barriga, sem nunca conseguir mais do que ficar com muita fome.

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