As pessoas morrem Maria Carpideira, as pessoas morrem.

Hoje pela matina durante a minha tentativa de abrir um pacote de bolachas Maria ás escuras a ver se não despertava e ainda voltava a dormir dou comigo cheia de migalhas a ler a noticia que me continua a remoer até agora. Pesou-me a tristeza de saber que um dos melhores professores que tive morrera assim como quem nada deve. Não era um professor normal no entanto era aquilo que julgo dever ser todos os professores. Deu-nos liberdade de escolha, noção de exigência, não tolerava atrasos que sabia serem por simplesmente nos estarmos a borrifar, castigava com olhares e palavras que de certa forma marcavam mais que ter menos dois valores na nota final e ria, ele ria connosco, ensinava de forma a que aprendêssemos e não da forma que nos queria explicar. era simples esta relação, tínhamos vontade de voltar para cada hora seguinte e no fim de todos os anos em que tudo nos deu, ainda nos entregou uma carta, com os contactos e a desejar um futuro promissor, a acreditar em nós, julgo que com algum receio de não nos ter dado o que devia, estava enganado o coitado, para mim pelo menos deu-me recordações muitas e boas, desde os primeiros minutos, não esqueço os primeiros minutos, foi a melhor apresentação que alguma vez vi, toda a gente ficou tipo parva a olhar para aquele homem alto com ar alucinado que tinha chegado uns quantos minutos atrasado e que no fim nos sorriu. Tive poucos professores destes. Devia ter tido mais. E soube-me a pena dos agora alunos daquela escola, daqueles cursos, que não vão saber o que é ter um dos melhores professores de sempre. Não lhe fiquei com nada mais, nada mais lhe dei. Não aproveitei aquele cartão de contacto como alguns fizeram, talvez por ter ido para mais longe, por não me ter passado pela cabeça ou porque não lhe via utilidade ou necessidade. Ficam agora as memórias que não pretendia e não pretendo esquecer das tardes chuvosas e da água a entrar pela janela, das palavras de incentivo, dos ralhetes atravessados e da dura capacidade de ignorar quando se zangava, dos cadernos bonitos que tenho cheios de apontamentos e pequenos recados que ainda uso.
Não sei qual foi a história, ninguém me a contou, não a consigo encontrar e acho que já não a quero saber. prefiro assim porque as pessoas morrem, ficam as recordações, não vamos estragar as recordações só porque as pessoas morrem.


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Carpida á vontade que logo eu vejo