Um ano sem Vô

Passou um ano.
Passou um ano e a única coisa que me lembro é de não me lembrar.
A ultima vez que falei contigo tu respondeste-me em forma de nada, não porque não o quisesses fazer mas porque já não sabias como se fazia, disseram-me que choras-te e mesmo assim cumpriste com o que te pedi como sempre o fizeste talvez percebendo melhor que eu o porque do meu pedido.
-Aguenta-te aí, deixa-me chegar a casa, estou quase a chegar.
E tu choras-te, talvez por saberes que ia ser difícil mas esperas-te.
Cheguei tarde e mesmo se quisesse não te poderia ver. Tu sabias que não queria, falamos disso muitas vezes. De manhã cedo, vestida e pronta para sair, com as minhas botas de cano alto e o meu batom vermelho ia ver-te. Ia mas não fui. Bateram á porta e tudo parou, Ele foi lá fora e veio com aqueles olhos que não precisam ser transformados em palavras e eu entrei em modo aleatório de pensamentos que não conjugam uns com os outros, não chorei, ainda não o fiz, mas roubaram-me o sorriso embora ele estivesse lá tão vermelho como as minhas não lágrimas.
Não queria ir ao teu funeral, nunca quis, mas fui, por respeito a quem não parava de chorar.
Não segui o luto mas vesti de escuro nesse dia, não ouvi a missa, não comprei flores, não joguei terra no teu caixão, não queria acreditar que eras tu que seguias naquele caixão tão pequeno para tão grande homem. Escrevi no teu livro, disse "se todas as pessoas tivessem metade do avô que foste o mundo seria bem melhor" porque era verdade, porque ainda é e mesmo que a tinta tenha ficado manchada com as únicas lágrimas que te chorei naquele dia nunca palavras foram tão difíceis de escrever, nunca vai deixar de ser verdade. Ouvi as pessoas falarem de ti como quem nada ouve, porque nenhuma delas me podia dizer nada que não soubesse, consolei quem precisava mais de mim sem querer que ninguém me consola-se. E não chorei, talvez por não ter porque o fazer, porque não me deixas-te esse amargo, porque sempre me enches-te de um amor tal que chorar não faria jus ao meu sentimento, talvez porque ali, sem chão, como se tivesse caído e rasgado os joelhos todos, sabia que não me podias apanhar, sabia que não havia os teus braços para me erguer.
Todas as pessoas me olhavam de lado, ali estava ela, neta, única neta, a rir, a sorrir, em pé, ao longe, mas não me importa, não fiz nada que não fizesses, fui á igreja mas não entrei, foi a um funeral e não levei flores, fui despedir-me de ti e não cheguei a tempo.
Mais tarde fui ter contigo, sozinha, sentei-me no mais perto que podia do teu colo, não chorei mas fiquei ali sentada a tentar sentir-te, numa campa sem fotos tuas, cheia de flores iguais ás que tu arrancavas "sem querer" só para deixar a Maria danada da vida, e ali fiquei, até ter os pés mortos e os olhos secos do frio, com a cabeça cheia de sons que nunca mais iria ouvir e a única conclusão que cheguei foi que nunca mais iria ter de andar aos berros á tua procura, agora sei onde vais estar para sempre, porque sempre vais estar aqui, no meu coração que não chora porque as lembranças o fazem sorrir por mais pesada que seja a tristeza de saber que não esperaste por mim mas sim pelo momento certo de te deixares roubar.

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Carpida á vontade que logo eu vejo